A Revolução das Canetas Emagrecedoras
O fenômeno das canetas emagrecedoras, que utilizam medicamentos à base de GLP-1, já não se limita apenas aos cardápios dos restaurantes. As mudanças nos hábitos de quem faz uso desses medicamentos estão influenciando diversos setores da economia. Desde a reavaliação das proteínas nas refeições até o lançamento de novos produtos, como refeições em pó, a indústria se adapta a esta nova realidade.
Lucas Esteves, analista do Santander especializado em varejo, compara o impacto das canetas emagrecedoras ao da inteligência artificial, avaliando que isso pode transformar radicalmente o mercado de consumo. Ele destaca que cerca de 60% da população brasileira enfrenta sobrepeso ou obesidade e que, com a diminuição da patente do Ozempic, novos produtos deverão surgir ainda este ano, tornando o tratamento mais acessível. Atualmente, o custo mensal do tratamento gira em torno de R$ 1.000.
Embora os preços ainda sejam altos para a maioria, os medicamentos estão ganhando popularidade. Segundo dados da consultoria Iqvia, as vendas desses produtos aumentaram 42% em volume, totalizando 8,7 milhões de unidades em 2025.
Mercado em Crescimento
A Abrafarma, entidade que representa as redes de farmácias e drogarias, estimou que o mercado de canetas emagrecedoras faturou R$ 10 bilhões no último ano, com 85% desse montante vindo de suas associadas, que são principais players do setor. O impacto dessas canetas já é percebido em diversos segmentos. Quase 30 empresas fora do setor de saúde mencionaram o uso de medicamentos à base de GLP-1 em relatórios financeiros nos Estados Unidos, um número significativo comparado às 14 empresas registradas no ano anterior.
No Brasil, essa tendência também é visível. Gilberto Tomazoni, CEO da JBS, mencionou que a demanda por carne bovina tem crescido, impulsionada pela melhoria da renda da população e pela nova geração que se volta para uma alimentação rica em proteínas, além da influência das novas drogas como o GLP-1.
Adaptação das Indústrias Alimentícias
Alexandre Santoro, CEO do Pão de Açúcar, afirmou que as canetas emagrecedoras estão alinhadas a uma busca crescente por alimentos com menos carboidratos e mais proteínas. Essa transformação afeta até mesmo as indulgências, que estão se tornando mais premium. Empresas como Coca-Cola, PepsiCo e Kraft Heinz já estão adaptando suas estratégias para atender essa nova demanda.
No Brasil, a rede Subway está reposicionando sua marca, oferecendo saladas com proteína para um público que procura refeições menores e mais nutritivas. Um estudo realizado pela empresa revelou que 52% dos consumidores optam por saladas com frequência. Em resposta, a rede lançou uma nova linha de lanches com o dobro de proteínas e menos calorias.
Novos Produtos e Serviços para um Novo Cliente
A Supley, fabricante de suplementos, planeja lançar em 2027 um composto em pó que substituirá uma refeição, destinado especialmente a usuários de canetas emagrecedoras. O produto incluirá carboidratos, gorduras saudáveis, fibras, vitaminas e minerais, embora deva ter um preço superior ao do whey protein tradicional.
Enquanto isso, a Fast Spa, uma rede de estética, lançou um serviço de eletroestimulação para ajudar a combater a flacidez resultante da rápida perda de peso. Márcia Queirós, sócia do grupo, explica que a tecnologia simula contrações musculares equivalentes a 1.500 abdominais em uma sessão de 30 minutos.
Demandas no Segmento de Moda e Estética
O ajuste de roupas também tem visto crescimento significativo, com a Sapataria do Futuro registrando um aumento de 20% nos serviços de costura nos primeiros meses do ano. Thiago Campos, presidente da rede, relatou que muitos clientes retornam em pouco tempo para novos ajustes.
O grupo Fábrica de Bares, dono de renomados estabelecimentos, está investindo em bebidas sem álcool, já que o uso das canetas tem levado muitos a reduzir ou eliminar o consumo de álcool. Cairê Aoas, sócio fundador, comentou sobre a adaptação às novas preferências dos consumidores, incluindo a oferta de mocktails e drinks com menor teor alcoólico.
Impacto Sustentado e Futuro do Mercado
O CEO da Ambev, Carlos Lisboa, está monitorando como esses medicamentos afetam o mercado, mas ainda não percebeu mudanças significativas nas vendas. Ele ressaltou que a empresa já oferece opções para diversos perfis de saúde, como cervejas zero álcool e funcionais.
Lucas Esteves acredita que o uso das canetas emagrecedoras pode se tornar cíclico, já que o efeito rebote é uma preocupação. Se os usuários não se reeducarem, podem buscar novamente o medicamento após parar de usá-lo. Embora as indulgências continuem a ser consumidas, há uma tendência crescente por alimentos proteicos.
Dados da Memed, plataforma de prescrição digital, mostram que 68% dos usuários de canetas emagrecedoras são mulheres, com a faixa etária de 30 a 49 anos representando 53% do consumo. A Wegovy lidera o mercado, seguida pelo Mounjaro, que já conquistou uma fatia significativa em seu primeiro ano de vendas.
