O Crescimento dos Preços da Energia no Mercado Livre
O preço da energia tem sido um tema de discussões acaloradas no setor elétrico, especialmente nas últimas semanas no mercado livre, onde consumidores têm a liberdade de negociar prazos e volumes de fornecimento. Com os preços em ascensão e uma percepção de escassez de oferta para contratos de longo prazo, a situação se torna cada vez mais preocupante.
Atualmente, o mercado livre responde por 42% do total de energia consumida no Brasil, englobando 95% da demanda industrial e ampliando sua abrangência para clientes de menor porte. Em 2024, a energia disponível no mercado livre se estenderá a todos os consumidores de média e alta tensão, incluindo aeroportos, hospitais e shoppings. Até novembro do ano que vem, essa oportunidade também alcançará aproximadamente 6 milhões de consumidores de baixa tensão, como bares e restaurantes, com planos de abertura total para consumidores residenciais até 2028.
Embora houvesse expectativas de um crescimento robusto e de preços competitivos, a realidade se apresenta de forma contrária. Dados da Abraceel, que representa mais de 100 comercializadoras, revelam que ao longo de 2024 até março de 2026, os contratos de energia para quatro anos sofreram uma alta expressiva de 59%, com preços saltando de R$ 147 a R$ 233 por MWh (megawatt-hora). Já os contratos de três meses observaram um aumento ainda mais drástico, de 121%, passando de R$ 143 para R$ 317 por MWh.
O Impacto da Inflação e Comparações de Mercado
Para contextualizar, a inflação média anual pelo IPCA nesse mesmo período foi de aproximadamente 5%. Normalmente, as comercializadoras de energia compram da geração e revendem, com preços no mercado livre historicamente abaixo dos praticados pelas distribuidoras. Entretanto, essa diferença vem se estreitando.
No final de março, por exemplo, um supermercado em São Paulo poderia economizar 4% em um contrato de três meses em comparação ao mercado cativo, mas em contratos anuais, os preços já estavam praticamente empatados. Este cenário gera apreensão quanto a uma possível elevação nos preços do mercado livre, o que pode dificultar a transição em curso.
Rodrigo Ferreira, presidente da Abraceel, enfatiza que tradicionalmente os preços no mercado livre seguiam a lógica da oferta e demanda, com variações influenciadas por fatores como o regime hidrológico. No entanto, a atual situação, segundo ele, é perplexa: “Os fundamentos que sempre nortearam o setor estão desmoronados. Ninguém consegue entender por que os preços sobem ou caem”.
Escassez de Oferta e a Visão das Comercializadoras
A oferta de energia para contratos de longo prazo está praticamente comprometida, o que é descrito como uma realidade atípica pelo CEO da Enercore Trading, Marcelo Parodi, que possui 28 anos de experiência no setor. Ele destaca que nunca viu uma escassez assim antes.
As comercializadoras, por sua vez, afirmam que não falta energia, mas sim um ajuste na oferta, pois os grupos geradores com usinas hidrelétricas têm energia à disposição, mas estão relutantes em vender no longo prazo devido à incerteza do mercado. Algumas comercializadoras independentes, que se beneficiaram em momentos de preços baixos, agora enfrentam dificuldades e demissões, e a preocupação com a falência de empresas aumenta.
A Crise e os Riscos no Mercado
De acordo com Camilla Fernandes, diretora da Abrage, a situação crítica das geradoras eleva o risco de crédito no mercado, resultando em cautela nas transações. Rodrigo Limp, vice-presidente da Axia, confirma que a necessidade de uma análise econômica e sustentável na realização de contratos de longo prazo é fundamental, especialmente após casos em que comercializadoras não cumpriram seus compromissos.
Atualmente, cerca de um terço dos contratos de longo prazo vencerá nos próximos dois anos, e indústrias de grande porte já estão complementando sua energia por meio de autoprodução e projetos de energia renovável.
O Futuro do Mercado Livre e os Desafios à Vista
Ainda é cedo para prever como ficará o fornecimento para empresas menores, mas a alta nos preços do mercado livre pode desacelerar a migração para esse modelo ou até reconfigurar o setor. O gerente de Energia da CNI, Roberto Wagner Pereira, menciona que o cenário pode levar a um ajuste competitivo entre as empresas.
O debate em torno do modelo econômico utilizado para calcular o preço balizador do mercado livre, conhecido como PLD (Preço de Liquidação das Diferenças), também emerge neste contexto. Luiz Barroso, da PSR, destaca a urgência de aprimorar o modelo, que ainda se baseia em premissas de geração hidrelétrica, não refletindo adequadamente as fontes eólicas e solares.
A situação atual, portanto, levanta questões sobre a eficácia do modelo e se ajustes são necessários para evitar aumentos de preços desproporcionais. O ONS, procurado, afirmou que suas decisões são fundamentadas em critérios técnicos, visando equilibrar segurança e custo, mas a discussão sobre a estrutura do mercado livre continua em aberto.
