Uma Reflexão sobre como o ‘Canto das Sereias’ Domina Nossas Vidas
A complexidade da verdade não se resume a simples notificações de celular. No contexto atual, repleto de mensagens que exigem nossa atenção — como “veja”, “confira”, e “acompanhe” — o desafio se torna capturar uma fração dos 86.400 segundos que cada dia nos oferece. Neste cenário, uma notícia, um vídeo no TikTok, uma foto no Instagram, um post no X, um email de trabalho ou uma notificação de apostas competem ferozmente pelo nosso foco, um recurso cada vez mais escasso e disputado.
Esse é o tema central abordado pelo jornalista americano Chris Hayes, que busca desvendar como a sociedade contemporânea lida com a enxurrada de mensagens fragmentadas que dificultam a seleção do que realmente importa e a desconexão necessária do que é trivial. Em seu livro “Capitalismo da Atenção: Como a Atenção se Tornou o Recurso Mais Escasso do Mundo” (Globo Livros, selo Livros de Valor), Hayes explora o imenso desafio de manter a concentração em meio a tantos apelos digitais.
“Minha experiência é aquilo em que eu aceito prestar atenção”, afirma o autor, citando o filósofo e psicólogo americano William James, que em 1890 já discutia sobre o controle da mente. De acordo com Hayes, “nosso domínio sobre nossas próprias mentes foi subtraído” e, como consequência, nossa vida interior sofreu uma transformação sem precedentes, o que é evidente em diversos países e culturas.
Hayes compara as notificações que recebemos a um “canto das sereias” que nos hipnotiza e desvia o nosso foco. Ele inicia a obra fazendo alusão a uma das aventuras do Odisseu, no qual o herói, para escapar da feiticeira Circe, pede para ser amarrado ao mastro do navio, evitando ser seduzido pelo canto das sereias que prometem levá-lo à morte.
O autor também brinca com o título original do livro: “The Sirens’ Call”, que em inglês se refere tanto a “sereia” quanto a “sirene”, um dispositivo que também chama a atenção. O subtítulo original, “How Attention Became the World’s Most Endangered Resource”, reflete a urgência da questão. A palavra “ameaçado” carrega um peso específico na experiência de Hayes, que observa a dinâmica envolvendo figuras como Donald Trump e Elon Musk, que manipulam habilmente o “canto das sereias” em suas redes sociais para direcionar a atenção pública.
Em 2022, Trump lançou a rede social Truth Social após ser banido do antigo Twitter, que agora é controlado por Musk. Desde a aquisição da plataforma, Musk reformulou o Twitter — agora chamado X — tornando-o mais refratário à moderação de conteúdo, um cenário que ilustra bem a luta pela atenção no mundo digital.
De acordo com Hayes, assim como a Revolução Industrial transformou o trabalho físico em um ativo, a revolução digital fez da atenção uma matéria-prima para a nova economia. Esse recurso é conquistado de maneira silenciosa e invasiva, gerando lucros imensos para as big techs, como Apple, Microsoft, Alphabet (Google), Amazon e Meta (WhatsApp, Instagram e Facebook).
O principal argumento de Hayes é que a atenção não é mais um bem pessoal; tornou-se um ativo valioso no universo dos algoritmos, onde cada “like”, compartilhamento e visualização influencia os investimentos publicitários. Quanto mais engajamento, maior o custo do espaço publicitário. É esse o preço que pagamos pela chamada “atenção social”.
O autor reforça a ideia de que “ter foco é ter poder”. Embora não ofereça uma fórmula mágica para aumentar a concentração — menciona que tentativas de meditação não trouxeram resultados significativos —, ele destaca que a autodisciplina necessária para resistir a esses estímulos é essencial para nossa saúde mental.
Além de discutir a relação complexa entre as big techs e a democracia, o livro de Chris Hayes levanta questões sobre saúde mental e o futuro da mídia — e, potencialmente, da sociedade como um todo. Atualmente, a inteligência artificial ampliou o acesso à informação, mas a verdadeira sabedoria reside na habilidade de selecionar quais informações e experiências são realmente relevantes.
Por fim, é interessante notar que o leitor que chegou até aqui dedicou de três a quatro minutos da sua atenção — um tempo valioso, especialmente considerando que, em média, as pessoas gastam apenas 30 segundos em uma notícia, conforme dados da empresa Chartbeat, que analisa o tráfego digital.
