Explorando as Contribuições de um Mineiro para o Debate Político Nacional
No novo livro “Seis gigantes que retornam e outros estudos”, do autor Bolívar Lamounier, publicado pela Edicon em 2025, a obra vai além de uma simples apresentação erudita de clássicos das ciências sociais. Ela se configura como um importante compêndio de pistas que revelam as ideias e contribuições do autor para o debate político brasileiro ao longo de sua trajetória. Um dos destaques do livro é um ensaio profundo sobre Minas Gerais durante o período colonial. Embora esse tema não esteja explícito no título, ele ilumina não apenas as origens do autor, mas também sua análise sobre as características do Estado e do sistema político brasileiros, assuntos que sempre estiveram na mira de suas preocupações.
Nascido em Dores do Indaiá, uma cidade no interior de Minas Gerais, Lamounier iniciou sua formação em sociologia e política em Belo Horizonte na década de 1960. Posteriormente, se aventurou em Los Angeles para cursar o doutorado, uma jornada que foi interrompida por sua prisão durante a ditadura militar ao retornar a Belo Horizonte. Durante esse período conturbado, ele escreveu uma tese focada nas ideologias políticas autoritárias em voga no Brasil. Após sua volta, foi fundamental na organização dos cursos de pós-graduação em Ciência Política e Sociologia no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro e, posteriormente, se transferiu para São Paulo, onde colaborou com Fernando Henrique Cardoso no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Sua atuação foi marcante nas eleições das décadas de 1970 e 1980, e em 1985, integrou a Comissão Afonso Arinos, que foi responsável por elaborar o anteprojeto da Constituição brasileira. Desde então, Lamounier tem se dedicado à pesquisa e à participação ativa nos debates sobre a consolidação e o funcionamento da democracia em nosso país.
No ensaio que explora Minas Gerais, Lamounier apresenta um retrato vívido do conturbado processo de ocupação da região, que visava a exploração do ouro no século XVIII. O autor descreve como a chegada de trabalhadores para as minas impulsionou não apenas o crescimento da economia local, mas também a necessidade do Estado português em manter controle sobre a riqueza gerada. Este cenário trouxe à tona tensões e conflitos, revelando a dinâmica entre a administração colonial e os mineradores, além dos desafios enfrentados por escravizados e libertos que desempenhavam um papel crucial na atividade econômica da época. Mas o que sobrou dessa riqueza durante o século XIX, quando o ciclo do ouro chegava ao fim? Nem uma mera economia de subsistência, tampouco uma sociedade tradicional do tipo feudal, mas sim uma composição social complexa, caracterizada pela agricultura e pecuária, em que coexistiam uma elite rural empobrecida, e trabalhadores, escravizados e libertos, vivendo nas fazendas e aldeias que resistiram ao declínio da era do ouro.
Um dos “gigantes” mencionados na primeira parte do livro, Victor Nunes Leal, oferece uma chave interpretativa fundamental para compreender Minas Gerais, simbolizada pela figura do “coronel”. Esse personagem não se limita a ser um chefe local; ele representa um elo entre a sociedade rural e o Estado em ascensão, cuja importância se torna cada vez mais evidente, não apenas na capital, Rio de Janeiro, mas também nos governos provinciais, que se firmam especialmente com a fundação de Belo Horizonte em 1897. O coronel, por sua vez, encoraja seus filhos a buscar educação nas cidades e vai à capital para negociar cargos, simbolizando a transição de um poder privado que se vê cada vez mais desafiado à medida que o país avança em direção à modernidade.
Outro gigante da obra, Celso Furtado, é amplamente reconhecido por sua contribuição à moderna história econômica do Brasil, além de sua valorização da modernização. No entanto, sua abordagem é criticada por focar exclusivamente na industrialização, sem considerar a vitalidade também existente no campo. Essa dualidade de análises e visões é essencial para entender a complexidade do Brasil contemporâneo e a formação de sua sociedade.
