A Valorização do Livro de Tiradentes
O “Livro de Tiradentes”, um dos documentos mais significativos da Inconfidência Mineira, ganhou uma nova luz em 2023. Isso se deve a uma perícia da Polícia Federal que confirmou que as anotações presentes na obra são, de fato, de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Este marco não só reforça a relevância da obra, mas também a importância de Tiradentes como figura central na luta pela liberdade no Brasil.
A celebração em torno do livro veio em um momento oportuno, já que as autoridades, intelectuais e historiadores de Minas Gerais buscam transformar o feriado de 21 de abril em um dia de reflexão e valorização da data que homenageia o principal líder da Inconfidência Mineira. Esse movimento é uma forma de reconhecer a luta pela liberdade e os direitos dos brasileiros diante da Coroa Portuguesa.
História e Doação do Livro
O livro esteve na Biblioteca Pública de Santa Catarina desde o dia 30 de janeiro de 1860. Em um gesto de reconhecimento, o diretor da Biblioteca Nacional, Melo Morais, decidiu enviar 1.000 livros do acervo catarinense para Minas, incluindo o “Livro de Tiradentes”. Curiosamente, a obra é uma coletânea em francês chamada “Recueil des Loix Constitutifes des Etatts-Unis”, que traduzido significa “Coletânea das Leis Constituintes dos Estados Unidos”.
Um ponto interessante sobre a doação é que, segundo o processo assinado por Melo Morais, o livro foi retirado do julgamento e condenação de Tiradentes, guardado “dentro de um saco verde”. Esse detalhe traz à tona a conexão íntima do livro com a história do Brasil e revela a complexidade do seu percurso até chegar às mãos dos mineiros.
Significado da Obra para a Constituição
Imprimido na Suíça, o livro incluía as bases constitucionais das ex-colônias inglesas da América do Norte e serviu como inspiração para a Constituição norte-americana. Durante a época em que o livro circulou por Minas Gerais, os Estados Unidos já haviam proclamado sua independência, surgindo como um novo exemplo de república em meio ao domínio britânico.
Tiradentes, que ocupava o posto de Alferes e ingressou na carreira militar em 1780, tinha um conhecimento surpreendente da língua francesa para sua época. Ele não apenas lia o livro, mas também fazia anotações em suas páginas, demonstrando seu interesse pelas ideias repúblicanas que fervilhavam na Europa.
A Procurada Devolução do Livro
Em 1984, quando Tancredo Neves assumiu o governo de Minas Gerais, ele enviou um documento ao governador de Santa Catarina, Esperidião Amin, solicitando a devolução do livro, considerado um “documento fundamental da nossa memória cívica e política”. O pedido, assinado pelo jornalista José Aparecido de Oliveira, que era secretário de Cultura de Minas, enfatizava a importância do livro para a historiografia brasileira e a expectativa da população mineira.
Após tramitação no Conselho Estadual de Cultura e a elaboração de um relatório minucioso pelo professor Norberto Ungaretti, o processo de devolução foi encaminhado à Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina (Alesc). O projeto de lei foi rapidamente aprovado, e em 19 de abril de 1984, a Lei 6333 foi sancionada, autorizando a doação do livro.
O Ato Solene e a Perícia
No dia 21 de abril do mesmo ano, uma delegação de Santa Catarina viajou até Belo Horizonte para formalizar a entrega do livro. A cerimônia foi marcada por homenagens aos catarinenses e pela entrega da Medalha da Inconfidência Mineira ao governador Esperidião Amin, em reconhecimento à sua contribuição ao patrimônio histórico de Minas Gerais.
Recentemente, uma perícia realizada pela Polícia Federal nos manuscritos do livro confirmou que as anotações eram de Tiradentes. O laudo, que incluiu uma análise grafoscópica detalhada, destaca as características do volume, que incluem uma lombada de couro preto e folhas amareladas pelo tempo. Essa validação não apenas reafirma a autenticidade do documento, mas também sua importância para a história e a cultura do Brasil.
Contribuições Literárias e Histórico
Obras como “O Livro de Tiradentes”, do brasilianista Kenneth Maxwell, e “Pequena História da Inconfidência de Minas Gerais”, de Augusto de Lima Júnior, têm explorado o contexto e a relevância do livro na história da Inconfidência. Essas publicações ajudam a entender como o republicanismo norte-americano influenciou os inconfidentes mineiros, que, em um contexto de repressão colonial, buscavam alternativas de liberdade e justiça.
A história do “Livro de Tiradentes” e sua devolução a Minas Gerais são, portanto, mais do que um ato simbólico. São parte de um esforço coletivo para resgatar e valorizar a memória e as ideias que moldaram o Brasil moderno, refletindo a luta por liberdade e autonomia que ainda ressoa nos dias de hoje.
