Candidatos à Presidência em Nova Estratégia
A cada ciclo eleitoral, o cenário político brasileiro revela um padrão que se repete. Desde a redemocratização em 1989, nenhum candidato que terminou em terceiro lugar em uma eleição presidencial conseguiu conquistar o cargo em tentativas subsequentes. Essa dinâmica faz com que muitos dos que se posicionam como alternativas a Lula e Bolsonaro, frequentemente rotulados como ‘terceira via’, direcionem seus esforços para disputas em âmbito estadual.
Para as eleições de 2026, cinco dos sete candidatos que ocuparam o terceiro lugar em disputas presidenciais nas últimas três décadas já estão se preparando para concorrer a cargos regionais. Entre eles, destacam-se Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede), que são pré-candidatas ao Senado em São Paulo. Ciro Gomes (PSDB), por sua vez, se articula para uma corrida ao governo do Ceará, enquanto Heloísa Helena (Rede) e Anthony Garotinho (Republicanos) têm planos de se lançar como deputados federais pelo Rio de Janeiro.
Além disso, outros nomes que também se encontraram nessa posição anteriormente, como Leonel Brizola (PDT), que se tornou governador do Rio de Janeiro após a eleição presidencial de 1989, e Enéas Carneiro (Prona), o deputado federal mais votado do Brasil em 2002, quando obteve 1,5 milhão de votos, compõem esse panorama.
Entretanto, o contexto histórico das candidaturas de Brizola e Enéas difere das atuais. Ambos competiram em períodos que não eram marcados pela intensa polarização entre PT e PSDB, que dominou a política brasileira de 1994 a 2014, e posteriormente entre o PT e o bolsonarismo, que ganhou força a partir de 2018.
A cientista política Luciana Santana, professora da UFAL (Universidade Federal de Alagoas), argumenta que a aceitação da polarização por muitos políticos, especialmente aqueles que tentaram se distanciar dela, reflete uma tendência observada no eleitorado brasileiro. “Apesar de termos um sistema multipartidário, a tendência é que o eleitor busque o voto útil nas etapas finais, com base nas pesquisas que indicam quem está mais bem posicionado”, explica.
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Renato Meirelles, fundador do Instituto Locomotiva, acrescenta que a proposta de uma candidatura de terceira via é “muito viável como anseio social, mas praticamente inviável como projeto eleitoral” devido à dificuldade em reunir votos suficientes. Ele compara essa situação com a existência de um mercado sem um produto adequado para atender a demanda.
No horizonte das eleições de 2026, as pesquisas de intenção de voto novamente mostram um quadro de polarização entre Lula (PT) e a família Bolsonaro, desta vez com Flávio Bolsonaro (PL) como um dos principais concorrentes. De acordo com dados do Datafolha, ambos lideram as intenções de voto, atingindo 39% e 35%, respectivamente, enquanto nomes como Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) apresentam índices bem mais modestos, em torno de 5% e 4%.
Uma das principais apostas de um candidato alternativo nos últimos meses foi feita por Gilberto Kassab, presidente do PSD, que considerou lançar os governadores do Paraná, Ratinho Junior, e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. Contudo, até o momento, nenhum desses nomes demonstrou potencial para ganhar força.
O Caminho de Candidatos Conhecidos
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Simone Tebet se destacou nas eleições de 2022 ao se candidatar pelo MDB como uma opção de centro à polarização entre Lula e Jair Bolsonaro. Após finalizar a corrida eleitoral em terceiro lugar, ela optou por apoiar o petista no segundo turno. Com a vitória de Lula, foi nomeada ministra do Planejamento.
Embora tenha construído uma trajetória política com ênfase no liberalismo econômico e no agronegócio em Mato Grosso do Sul, ela se filiou ao PSB em 2026 para concorrer ao Senado na chapa liderada pelo PT em São Paulo, a pedido de Lula.
Marina Silva, por sua vez, também é uma ex-candidata à Presidência. Ela já participou de duas disputas presidenciais (2010 e 2014), sendo que em 2014 apresentou o melhor desempenho para um candidato em terceiro lugar, com 21,3%. Em ambas as provas, sua candidatura foi marcada por uma agenda ambientalista, e, após se reconciliar com Lula, integrou sua chapa em 2022, sendo eleita deputada federal e nomeada ministra do Meio Ambiente.
Ciro Gomes, um conhecido nome da política brasileira, já disputou a Presidência quatro vezes. Nos pleitos de 1998 e 2018, ele ficou em terceiro lugar. Ele é um político com histórico de atuação na centro-esquerda e já ocupou cargos de ministro durante os governos de Itamar Franco e Lula. Ciro, que teve seu desempenho eleitoral mais fraco em 2022, agora busca um caminho a seguir, considerando o governo do Ceará como uma possibilidade.
Por outro lado, Anthony Garotinho, ex-governador do Rio de Janeiro, também tem sua trajetória marcada por mudanças. Depois de iniciar sua carreira na centro-esquerda, ele hoje pertence ao Republicanos, partido que dialoga tanto com o PT quanto com o bolsonarismo.
Reflexões sobre o Futuro
Leonel Brizola e Enéas Carneiro, dois nomes que marcaram a política brasileira e cujos legados ainda são debatidos, apresentam um contraste com os desafios que os atuais candidatos enfrentam. Brizola, que ficou em terceiro lugar na primeira eleição direta após a ditadura em 1989, conseguiu posteriormente um sucesso em sua corrida pelo governo do Rio de Janeiro, enquanto Enéas, com seu estilo peculiar e direto, conquistou visibilidade, mesmo sem uma vitória eleitoral.
À medida que as eleições se aproximam, observa-se uma nova dinâmica nas candidaturas. O desafio permanece: como conseguir unir forças e conquistar a confiança de um eleitorado que, até o momento, tem se mostrado inclinado a optar por figuras já consagradas no cenário político.
