O Crescente Interesse pela Serra Verde
O Brasil, com a segunda maior reserva de terras raras do mundo, tornou-se um alvo de interesse para multinacionais do setor de mineração. Recentemente, a negociação de aquisição da mina Serra Verde, localizada em Goiás, pela mineradora americana USA Rare Earth (USAR), avaliada em US$ 2,8 bilhões, foi considerada um marco significativo na história da mineração de terras raras no Ocidente, segundo análise do BTG Pactual. A mina Pela Ema, parte do projeto Serra Verde, é única, pois é a única produtora fora da Ásia capaz de fornecer em grande escala os quatro elementos de terras raras magnéticos, conforme destacou Barbara Humpton, CEO da USAR.
A Serra Verde é especialmente atrativa devido à sua riqueza em terras raras pesadas, algo que a diferencia de outros depósitos ocidentais. A empresa começou a produção comercial no início de 2024, com previsão de alcançar uma produção anual de cerca de 6.500 toneladas de óxidos de terras raras até 2027. A mineradora se destaca como a única fora da Ásia a extrair quatro elementos essenciais: disprósio (Dy), térbio (Tb), neodímio (Nd) e ítrio (Y), que são cruciais para a fabricação de ímãs permanentes utilizados em veículos elétricos, turbinas eólicas, drones e outras tecnologias essenciais.
A Expectativa de Crescimento no Setor de Terras Raras
Com o Brasil se posicionando como um ator importante nesse mercado, o BTG Pactual apontou que diversas empresas, como Aclara, Viridis e Meteoric, têm potencial para se destacarem. O relatório sugere que essa transação pode desencadear uma onda de aquisições no setor, com empresas em desenvolvimento atraindo o interesse de mineradoras maiores.
A Serra Verde, sendo a única operação de terras raras ativa no Brasil, possui uma vantagem competitiva, especialmente considerando que a maioria dos projetos de desenvolvimento previstos para o futuro se concentrará apenas após 2028. Por outro lado, o S&P Global destacou a crescente importância de garantir fontes de suprimento de terras raras fora da China, especialmente para os Estados Unidos, que buscam diversificar suas importações e reduzir a dependência de um mercado que a China domina amplamente.
O Cenário Global e os Desafios da Produção
O relatório do S&P enfatiza que o aumento dos investimentos públicos e privados está acelerando a exploração de terras raras fora da China. Contudo, os analistas alertam que essa movimentação pode resultar em um excesso de oferta a longo prazo caso múltiplos projetos sejam ativados simultaneamente. Além disso, fatores como a geologia dos depósitos, a complexidade do processamento e a integração das cadeias de suprimento limitam a agilidade nas mudanças necessárias.
Embora essas matérias-primas sejam chamadas de “terras raras”, é interessante notar que o Brasil possui 23% das reservas globais, cerca de 21 milhões de toneladas, sendo encontrado em estados como Minas Gerais, Goiás, Amazonas, Bahia e Sergipe. O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) projeta que os investimentos nesse setor no Brasil devem aumentar em 10% entre 2026 e 2030 em comparação com o período de 2020 a 2025.
O Papel Estratégico do Brasil na Indústria Global
Além das reservas abundantes, o Brasil é visto como um parceiro estratégico para garantir a segurança e a diversificação das cadeias de suprimento globais. Segundo Adelina Lee, CEO da ADL Mineração, o Brasil está se destacando não apenas pela quantidade de reservas, mas também pela sua capacidade de execução em projetos de terras raras. A empresa realizou recentemente o primeiro embarque de monazita, um minério de terras raras, para o Canadá, marcando um retorno significativo após sete anos de inatividade nas exportações desse tipo.
O governo brasileiro, representado pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, está buscando implementar regulamentações para a exploração de minerais críticos no país. Rosa enfatizou a necessidade de uma legislação clara que assegure a industrialização desses recursos, evitando que o Brasil se torne apenas um exportador de matéria-prima, enfatizando que a industrialização deve ser uma prioridade.
Entretanto, o relator do projeto sobre terras raras na Câmara dos Deputados adiou a divulgação do seu relatório para 4 de maio, a pedido do governo, que busca fazer adequações às propostas, reforçando o compromisso com a industrialização dos minerais extraídos no Brasil.
