Perspectivas para o Turismo e a Cultura em Minas Gerais
Em entrevista exclusiva ao BHAZ, Leônidas Oliveira, secretário de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais, compartilha os principais desafios e prioridades de sua gestão. Entre os focos estão o fortalecimento do turismo, a valorização do patrimônio cultural e a importância econômica do setor para o estado. Oliveira explica as ações em andamento e os planos futuros para ampliar a visibilidade de Minas no cenário nacional e internacional, abordando ainda a necessidade de uma política permanente para o Carnaval de Belo Horizonte e a temática da “mineiridade”, que será tema do livro que ele lançará em breve.
Minas Inédita: valorizando distritos e comunidades tradicionais
O programa Minas Inédita, iniciativa da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult), foi criado para destacar distritos, vilas e povoados pouco conhecidos de Minas Gerais, apostando no turismo de experiência, no patrimônio cultural e na geração de renda para as comunidades do interior. Segundo Leônidas Oliveira, a proposta acompanha uma mudança no perfil dos viajantes, que buscam cada vez mais destinos autênticos e vivências culturais genuínas.
Levantamentos da Secult indicam que o estado possui mais de 4 mil localidades que preservam tradições, arquitetura, gastronomia e modos de vida ainda pouco explorados pelo turismo convencional. A ideia do programa é revelar essas atrações fora dos roteiros habituais, valorizando a essência da Minas rural. “A experiência turística vai se dar através do original, daquilo que é próprio e perto da verdade, em lugares que provocam pertencimento. Na roça é onde está a essência dessa Minas”, destaca o secretário.
Exemplos de destinos pouco explorados
Entre os locais citados, Piacatuba, distrito entre Cataguases e Leopoldina, na Zona da Mata, destaca-se por seu conjunto arquitetônico histórico e pelo Festival Gastronômico da Comida de Quintal, evento em que moradores transformam seus quintais em restaurantes temporários para receber visitantes em julho. “Há uma ladeira imensa, lá no alto uma igreja e uma rua feita por escravizados, onde a água que desce lava toda a via. Fora o festival, que é um dos mais originais e bonitos de Minas e movimenta a hotelaria”, conta Leônidas.
Outros destinos mencionados são Serra dos Alves, em Itabira, conhecido pelos cânions e cachoeiras, e Piranga, na região Central, ligada à cultura do café, queijo e leite, com sete grandes fazendas-hotel. Biribiri, distrito de Diamantina, cercado por áreas naturais preservadas, e São Bartolomeu, em Ouro Preto, famoso pela produção artesanal de goiabada e reconhecido como um dos três povoados mais bonitos do país em rankings turísticos recentes, também fazem parte do roteiro.
Avenida Cultural: um novo corredor de arte e turismo em Belo Horizonte
O Circuito da Liberdade ganhou um novo percurso entre a rodoviária e a Serra do Curral. A avenida Afonso Pena, no centro de Belo Horizonte, foi transformada na ‘Avenida Cultural’, integrando arte, cultura e turismo. Espaços como o Parque Municipal Américo Renné Giannetti, Casa Baanko, Centro de Entretenimento de Arte e Cultura (Ceac), Automóvel Clube e Igreja São José compõem o circuito, junto a instituições como o Cine Theatro Brasil, Palácio das Artes, CâmaraSete, P7 Criativo, Mercado das Flores, Museu do Judiciário Mineiro e Museu dos Brinquedos.
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O projeto é realizado pelo Governo de Minas, por meio da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult-MG), da Fundação Clóvis Salgado (FCS) e do Cine Theatro Brasil e Associação Cine Theatro Brasil, integrando o programa Minas Essencial, que une cultura, patrimônio e turismo para valorizar a identidade mineira.
Inovações no Edifício Acaiaca
Belo Horizonte também terá um mirante de vidro no tradicional Edifício Acaiaca, esquina entre as ruas Espírito Santo, Tamóios e a avenida Afonso Pena. A estrutura contará com elevador e plataforma de vidro, proporcionando aos visitantes a sensação de flutuar sobre o centro da cidade. A previsão de inauguração é entre o fim de setembro e início de outubro.
Leônidas Oliveira ressalta que o projeto da Avenida Cultural visa transformar a Afonso Pena em um corredor de arte, memória, educação, economia criativa e turismo. “Além da tirolesa que vai sair do topo do prédio até o Parque Municipal, oferece uma forma inovadora de vivenciar o Centro de Belo Horizonte”, comenta.
Reflexões sobre o Carnaval de Belo Horizonte
Questionado sobre o Carnaval de BH, o secretário reconhece que o modelo atual das chamadas “vias sonorizadas” pode ser repensado para ampliar a participação de blocos menores, tornando o espaço mais democrático. Atualmente, as avenidas Andradas, Amazonas e Brasil recebem equipamentos de som potentes, patrocinados pela Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge), com investimento de cerca de R$ 10 milhões em 2026.
Após reunião na Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), representantes de blocos solicitaram critérios mais claros para a escolha dos beneficiados. A Bruta, liga que reúne 70 blocos, apontou que somente 23 tiveram acesso às vias sonorizadas em 2026. A proposta é que o patrocínio seja repassado diretamente aos blocos.
Leônidas explica que, apesar do aumento dos investimentos, existem limites estruturais e legais para a distribuição dos recursos. “É impossível” remanejar diretamente os recursos para os blocos devido às regras da lei de incentivo e convênios que estruturam o financiamento cultural, afirma.
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Busca por democracia e diversidade no Carnaval
O secretário defende um modelo mais equilibrado, que contemple blocos de diferentes tamanhos e valorize iniciativas de bairros e coletivos menores. “Acho que deveríamos estabelecer uma porcentagem para blocos pequenos e grandes, para que as vias se tornem uma vitrine da diversidade do carnaval e não apenas dos maiores”, sugere.
Além disso, destaca a importância de revitalizar blocos caricatos, escolas de samba e grupos tradicionais, que foram fundamentais para manter o Carnaval vivo antes do crescimento da festa de rua. “Se há algo que precisa de revitalização urgente são esses grupos”, afirma.
Proposta de política pública permanente para o Carnaval
Leônidas Oliveira defende a criação de uma política pública permanente para o Carnaval de Belo Horizonte, focada na profissionalização de artistas, músicos e trabalhadores do setor, buscando reduzir a sazonalidade da atividade e garantir condições para atuação durante todo o ano.
Ele ressalta que a falta de estrutura fixa para ensaios, formação e produção artística é um dos principais desafios da festa. Atualmente, músicos e blocos dependem de espaços improvisados ou alugados, e enfrentam limitações financeiras para preparação contínua.
“Imagino um espaço financiado pelo poder público, onde músicos possam ensaiar, com laboratórios digitais para criação e oficinas de capacitação. Isso representaria um salto enorme”, conclui o secretário.
