Desigualdade de Gênero nas Candidaturas ao Governo
O panorama das candidaturas ao governo de Minas Gerais para 2026 indica um retrocesso na diversidade de gênero. Se a situação atual se concretizar, a eleição contará com apenas uma mulher entre os candidatos ao Palácio Tiradentes. Esse cenário é inferior ao verificado nas eleições de 2022, onde cinco mulheres disputaram o cargo, representando o maior número de candidaturas femininas na última década.
De acordo com levantamento do Estado de Minas, ao menos 11 nomes estão cotados para a corrida eleitoral até o momento. Contudo, apenas Indira Xavier, do Unidade Popular, surge como uma possível candidata. A lista predominante é masculina, incluindo figuras como o governador Mateus Simões (PSD), os senadores Rodrigo Pacheco (PSB) e Cleitinho Azevedo (Republicanos), o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT), além de outros pré-candidatos que ainda buscam viabilizar suas candidaturas.
Esse cenário reafirma a hegemonia masculina nas candidaturas ao Executivo estadual, mesmo em um momento em que o debate sobre representatividade de gênero na política se intensifica. Historicamente, a participação de mulheres nas eleições para o governo de Minas Gerais é baixa, conforme mostram os dados eleitorais.
Em 2022, cinco mulheres concorreram ao governo mineiro, incluindo Indira Xavier, em um total de 10 candidatos. Já nas eleições de 2018, 2014 e 2010, apenas uma mulher participou de cada disputa. Se o quadro atual prevalecer até o registro oficial das candidaturas, a eleição de 2026 deverá retomar o padrão de baixa representatividade feminina observado nas últimas décadas, interrompendo o avanço que se viu no pleito anterior.
Legislação e Desafios à Participação Feminina
A legislação eleitoral exige que os partidos reservem pelo menos 30% das candidaturas para mulheres, sob pena de sanções como a cassação do registro e a inelegibilidade de candidatos. No entanto, essa regra se aplica apenas às eleições proporcionais, como as de vereadores e deputados, não se estendendo às disputas para o Executivo. Até o presente momento, Minas Gerais nunca elegeu uma mulher para o cargo de governadora.
Fora de Minas Gerais, a situação não é diferente, evidenciando que a baixa presença feminina nas disputas majoritárias é um fenômeno estrutural. Análises do Estado de Minas, com base nas pré-candidaturas já sendo discutidas nos estados e no Distrito Federal, revelam que ao menos 15 unidades da federação não têm mulheres entre os nomes cotados para a disputa ao governo em 2026.
Nos estados onde há presença feminina, frequentemente há apenas uma pré-candidata, em meio a um grupo majoritariamente masculino. Exemplos de estados com pré-candidaturas femininas incluem Acre, Amazonas, Goiás, Mato Grosso, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Sul, São Paulo, Tocantins e o Distrito Federal.
Em contraste, diversas unidades da federação, como Rio de Janeiro, Bahia, Paraná e Santa Catarina, apresentam listas de novos candidatos compostas exclusivamente por homens, muitos dos quais já fazem parte de dinâmicas tradicionais de poder, como governadores em exercício ou ex-chefes do Executivo.
Perspectivas na Disputa Presidencial
No cenário nacional, a disputa para a presidência em 2026 também apresenta uma diminuição na participação feminina. Até o momento, apenas uma mulher está na corrida pelo Palácio do Planalto, o que, se mantido até o registro oficial, representará o menor número de candidaturas femininas desde 2002, quando a eleição foi composta exclusivamente por homens.
A única pré-candidata mulher até agora, Samara Martins, tem levantado questões sobre a falta de visibilidade de sua candidatura. Representante da Unidade Popular (UP), partido registrado no Tribunal Superior Eleitoral em 2019, ela já havia integrado uma chapa presidencial anterior como vice de Leo Péricles, que obteve apenas 0,05% dos votos válidos.
Os nomes mais proeminentes até o momento na disputa presidencial incluem o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que busca a reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL), principal candidato da oposição. Outros seis postulantes masculinos já se manifestaram, intensificando a presença masculina na corrida.
Entre os pré-candidatos estão os ex-governadores Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais, e Ronaldo Caiado (PSD), de Goiás, que deixaram seus cargos para concorrer à presidência. Outros nomes que se destacam são Aldo Rebelo (DC), Renan Santos (Missão), Cabo Daciolo (Mobiliza) e Augusto Cury (Avante), este último, recém-digido ao grupo de postulantes.
Esse quadro se contrasta com a eleição de 2022, quando quatro mulheres participaram da disputa ao Palácio do Planalto, o maior número desde a redemocratização. Entre elas estava Simone Tebet, do MDB, que se tornou ministra do Planejamento e Orçamento após a campanha.
Barreiras e Alternativas para a Participação Feminina
A diminuição da presença feminina nas candidaturas ao Executivo, na visão de Marlise Matos, professora da UFMG e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher, está relacionada à forma como os partidos estruturam suas estratégias eleitorais e distribuem o poder internamente. Ela aponta que, tradicionalmente, os cargos majoritários são reservados para líderes masculinos já consolidados.
Matos enfatiza que a predominância masculina nos espaços legislativos reforça a competitividade entre eles, fazendo com que sejam mais frequentemente credenciados para as disputas pelo Executivo. Nesse contexto, os cargos de prefeito, governador e presidente acabam funcionando como uma “reserva masculina de poder”, dificultando o avanço das mulheres, mesmo com um aumento recente nas candidaturas femininas.
Com o objetivo de enfrentar esse desafio, a cientista política defende a necessidade de ampliar o debate público e implementar mudanças institucionais mais profundas. A paridade de gênero deve ser uma meta, e as cotas atuais, segundo ela, não produziram os efeitos esperados. “No Brasil, as cotas de candidaturas não surtiram efeito”, afirma, pedindo por uma abordagem que coloque a paridade como horizonte democrático.
