O Legado do Impeachment de Dilma Rousseff
Há dez anos, a votação do impeachment de Dilma Rousseff (PT) na Câmara dos Deputados simbolizou de forma contundente o fenômeno da polarização política no Brasil. Naquele dia, um muro de placas metálicas dividiu o gramado da Esplanada dos Ministérios, separando as multidões vestidas de amarelo, que clamavam pelo afastamento da então presidente, das que se vestiam de vermelho, protestando contra o que consideravam um “golpe”. Sem essa barreira, o que poderia ter acontecido é incerto, mas o clima era tenso e carregado.
Desde aquele episódio marcante, o Brasil parece não ter conseguido encontrar um meio-termo, e essa divisão é talvez o legado mais duradouro do impeachment. O ato não apenas resultou na destituição de Dilma, mas também representou o surgimento de uma nova direita, que se afirmou após décadas de acomodação em partidos que mais refletiam o antipetismo do que um verdadeiro conservadorismo.
A Ascensão de Jair Bolsonaro
A saída de Dilma Rousseff do poder também plantou a semente que, dois anos depois, elevou Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto. Naquele momento, o então deputado federal e capitão do Exército ainda era um personagem secundário no cenário político. Sua participação na votação do impeachment foi marcada por elogios a um torturador, o coronel Carlos Brilhante Ustra, e uma famosa cusparada desferida pelo ex-BBB e deputado Jean Wyllys, que ficou emblemática.
É interessante notar que, na edição do dia seguinte ao impeachment, a Folha de S.Paulo dedicou apenas duas linhas ao futuro presidente, referindo-se a ele como “um polêmico deputado, ídolo da extrema direita”. Essa polarização, que já se fazia presente, não tardou a invadir o vocabulário dos brasileiros, com termos como “golpe” adquirindo novos significados, abrangendo até ações constitucionais, o que gerou um debate acirrado e dividido.
A Influência das Redes Sociais
Naquele período, as redes sociais ainda estavam em um estágio inicial de influência na política, mas já começavam a se mostrar relevantes. Elas ajudaram a popularizar expressões como “Bessias”, que se referia ao atual indicado ao STF Jorge Messias, e o famoso “tchau, querida”, de Lula para Dilma, que rapidamente se tornou um slogan da oposição durante a votação. Se naquela época foi um telefonema interceptado, hoje seria um áudio enviado via WhatsApp, refletindo a evolução dos meios de comunicação.
Michel Temer, que assumiu a presidência interinamente pouco depois da votação e definitivamente após o Senado confirmá-la, também deixou sua marca. Ele lamentou sua condição de “vice decorativo” e se destacou por seu uso peculiar de expressões em latim e gesticulações durante discursos.
Impeachment e o Fortalecimento do Centrão
O impeachment de Dilma não apenas moldou o futuro político do Brasil, mas também forneceu um impulso significativo ao centrão, um bloco de parlamentares que, na prática, se consolidou como base de sustentação do governo Temer. Desde então, seu poder só cresceu, alimentado por emendas impositivas que hoje dificultam a governabilidade do Executivo.
A figura de Gilberto Kassab, que transitou entre os governos de Dilma e Temer, exemplifica como o impeachment redefiniu alianças políticas. Além disso, esse evento marcou um dos últimos momentos de destaque para o PSDB, que forneceu representantes e prestígio ao novo presidente, incluindo a indicação do ministro das Relações Exteriores.
O Ecossistema Político e a Operação Lava Jato
Não se pode ignorar que o processo de destituição da primeira mulher a ocupar a presidência do Brasil ocorreu sob a sombra das denúncias da operação Lava Jato. Essas acusações exerceram um peso muito maior no desfecho do impeachment do que o pretexto formal das pedaladas fiscais. A combinação desses fatores revela a complexidade e as repercussões do impeachment na política nacional.
