Moda autoral em Uberlândia ganha força a partir de experiências pessoais
Antes mesmo de conquistar a máquina de costura, muitos criadores em Uberlândia começaram suas jornadas entre brincadeiras com bonecas, retalhos encontrados em casa e referências descobertas na internet. Essas diferentes histórias se cruzam hoje em ateliês da cidade, onde uma nova geração transforma memórias e vivências em roupas autorais.
O Dia Internacional da Moda, celebrado nesta sexta-feira (21), destaca uma atividade que vai muito além das vitrines. A moda, que une cultura, comportamento, identidade e economia, também é feita por quem pesquisa, desenha, modela e costura, dando forma a ideias e experiências pessoais.
Referências digitais e experimentações na Spira
Lucas Spirandelli, de 24 anos, encontrou na internet o pontapé para seu interesse pela moda. Ao descobrir um blog sobre moda asiática, ele se deparou com uma estética diferente das referências tradicionais brasileiras e europeias. Essa descoberta abriu portas para pesquisas sobre marcas, designers e movimentos artísticos que influenciam suas criações.
Para Lucas, o experimentalismo é um convite para errar e reinventar. “Gosto de testar mesmo sem conhecimento formal, deixando a mente livre para imaginar”, conta. A Spira, sua marca lançada em 2023, incorpora influências que vão além do vestuário, incluindo filmes, música e experiências pessoais, resultando em peças que são retratos do seu repertório e dos momentos vividos.
Um aspecto marcante na trajetória da Spira é a parceria com a mãe de Lucas, que assumiu a confecção das peças diante das dificuldades dele com a costura. Sem formação formal, mãe e filho apostam em vídeos, pesquisas e muita experimentação para desenvolver modelagens que desafiam o convencional. “Algumas peças são verdadeiras engenharias que criamos na tentativa e erro”, brinca.
Malako: arte, identidade e resistência na moda
Matheus Henrique, à frente da Malako, também iniciou seu contato com a moda ainda na infância, costurando roupas para as bonecas das irmãs. Sua trajetória passou por diversas linguagens artísticas, como pintura, escultura e artesanato, além da influência da arte de rua e da estética hippie. Essa diversidade alimenta uma criação intuitiva, inspirada por nomes como Alexander McQueen e movimentos como Club Kid.
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Para Matheus, a moda vai muito além do visual: é uma forma de expressar identidade e posicionamento. Em suas coleções, promove discussões sobre gênero, liberdade e diversidade, inclusive com a inclusão de modelos trans em desfiles, algo ainda raro em muitos eventos da área.
Começando com costuras manuais em tecidos reaproveitados, Matheus construiu uma carreira que inclui oficinas e intervenções que questionam a exclusão de criadores LGBTQIA+. Ele reconhece o potencial da moda em Uberlândia, mas destaca a necessidade de ampliar o acesso a oportunidades para profissionais independentes.
Do sonho infantil à criação técnica e autoral
Evyllen Kethlen, de 25 anos, não se lembra de desejar outra profissão além da moda. A infância recheada de brincadeiras com retalhos e roupas antigas, ao lado da mãe, foi o embrião de uma paixão que se fortaleceu mesmo diante das dificuldades financeiras para estudar fora. Autodidata, buscou caminhos em Uberlândia para aprender costura, modelagem e design, chegando a se formar e se tornar professora.
Para Evyllen, técnica e criatividade andam juntas. O aprendizado no chão de fábrica e o contato com a realidade da produção deram a ela uma visão ampla do processo, que hoje equilibra moda festa e peças autorais na marca Ekthlen. A estilista acredita no potencial local e defende o reconhecimento dos profissionais que constroem a moda em Uberlândia.
Arthur Câmara: o gótico e a delicadeza na moda local
Desde a infância, Arthur Câmara encontrou nas artes e no universo das fantasias um modo de enxergar outras realidades. Influenciado pelas revistas da mãe e pelo estilo do pai, que transitava entre o gótico e o grunge, ele desenvolveu um olhar que mistura universos como o dark punk e o fetichista com a alfaiataria delicada.
Antes de se dedicar à moda, chegou a buscar a Medicina, mas optou por seguir algo que sentia mais natural. Um curso prático de costura foi o primeiro passo para transformar as imagens que desenhava em roupas concretas, revelando a importância do equilíbrio entre técnica e criatividade.
Arthur destaca o trabalho intenso por trás da moda autoral, especialmente fora dos grandes centros, onde muitos profissionais acumulam funções para manter suas criações vivas. Para ele, Uberlândia tem uma cena criativa consolidada, mesmo que ainda busque maior reconhecimento.
Moda autoral em Uberlândia: desafios e perspectivas
As histórias de Lucas, Matheus, Evyllen e Arthur mostram que o caminho para a moda autoral pode surgir de diferentes pontos: revistas, blogs, brincadeiras ou tecidos reaproveitados. Elas também revelam a complexa cadeia envolvida na produção, que inclui estilistas, modelistas, costureiras, fotógrafos, maquiadores e gestores.
Em Uberlândia, esses criadores enxergam potencial para ampliar a produção local, mesmo diante de desafios como investimento e visibilidade. O Dia Internacional da Moda serve para destacar essa produção que floresce fora das capitais e grandes empresas, nas pequenas oficinas e ateliês que dão forma a repertórios pessoais.
Como ressalta Evyllen, a moda vai além da estética: “Nosso papel é criar algo que conte uma história, desperte emoções e transforme quem veste”.
