Empresário indiano aposta na indústria de lítio brasileira
Um jovem empresário indiano, oriundo de uma família influente e com o suporte do governo de Narendra Modi, está tomando as rédeas de um investimento significativo no mercado brasileiro de lítio. Anjani Sri Mourya Sunkavalli, de 33 anos, está por trás da aquisição de um terço da refinaria da mineradora CBL, a única fora da China com capacidade de converter rocha dura de lítio em insumo para baterias elétricas. Recentemente, em Hyderabad, um centro tecnológico na Índia, Sunkavalli recebeu executivos da CBL para formalizar a compra, avaliada em US$ 40 milhões (aproximadamente R$ 211 milhões).
Ainda que esse montante seja modesto em comparação aos investimentos bilionários típicos do setor, a negociação marca um passo crucial para os planos da Índia de estabelecer sua própria indústria de baterias e veículos elétricos nos próximos anos, diminuindo sua dependência de fornecimentos chineses. Com essa aquisição, Sunkavalli poderá empregar a tecnologia da CBL para desenvolver refinarias na Índia, inclusive em maior escala do que a unidade da mineradora brasileira.
Indústria de baterias em expansão
Sunkavalli é o fundador da Altmin, empresa que pretende ser a pioneira na fabricação de cátodos de baterias na Índia a partir deste ano. Para alcançar esse objetivo, a companhia contará com o carbonato de lítio grau bateria, produto derivado do processamento do mineral realizado pela CBL, localizada no norte de Minas Gerais. Além disso, o governo indiano, com a visão de fortalecer sua indústria de minerais críticos, destinou US$ 4 bilhões para fomentar empresas locais.
O investimento de Sunkavalli na CBL possibilitará que a mineradora brasileira amplie sua produção de 2 mil toneladas de carbonato de lítio grau bateria para 6 mil toneladas até 2028. Após essa expansão, cerca de 5 mil toneladas desse insumo serão destinadas à Altmin. Embora esse volume seja pequeno em relação às dezenas de milhares de toneladas produzidas pelas refinarias chinesas, é suficiente para atender à primeira fase da produção da empresa indiana.
“Nosso acordo com a CBL se baseia na qualidade da tecnologia e na disponibilidade de lítio. Precisamos desse mineral para fabricar cátodos e também estamos interessados na tecnologia para construir outra refinaria aqui na Índia”, declarou Sunkavalli em entrevista.
A construção de refinarias e desafios regulatórios
No final do ano passado, a Altmin firmou um memorando de entendimento com uma estatal indiana para a construção de uma refinaria na Índia, com meta de produção de até 30 mil toneladas de carbonato de lítio grau bateria. Inicialmente, o empresário havia buscado convencer o governo indiano a investir na construção de uma nova refinaria no Brasil, mas desentendimentos regulatórios levaram à revisão dessa estratégia. “Na Índia, os governos regionais têm parques industriais com aprovações já pré-estabelecidas. Podemos adquirir um terreno e iniciar as obras em menos de três semanas. No Brasil, o prazo estimado para a construção de uma fábrica é de cerca de seis anos”, explicou Sunkavalli.
Desde 2019, a parceria entre a Altmin e a CBL tem se fortalecido, mesmo quando o projeto de cátodos da Altmin ainda estava em seus estágios iniciais. Na época, Sunkavalli precisou interromper negociações avançadas com o governo da Bolívia para a construção de uma refinaria, devido à crise política que resultou na deposição do então presidente Evo Morales. Apesar de abrigar um dos maiores depósitos de lítio do mundo, a Bolívia enfrenta dificuldades em dar início à operação.
Apoios políticos e perspectivas futuras
Sunkavalli integra um seleto grupo no Comitê Executivo para Minerais Críticos do governo indiano e, recentemente, se reuniu com Narendra Modi em um evento sobre o setor. Membro de uma família proeminente em Hyderabad, o empresário, até pouco tempo, tinha um sócio com investimentos em mineração e hotelaria.
No segundo semestre de 2022, Sunkavalli conseguiu que sua empresa fosse integrada à lista de parceiros dos Estados Unidos no fornecimento de minerais críticos, durante a administração de Donald Trump. Para a CBL, o negócio com a Altmin representa uma boa oportunidade, garantindo à empresa brasileira um cliente fixo para seu carbonato de lítio a preço de mercado, que atualmente gira em torno de US$ 20 mil (R$ 104 mil) por tonelada. “Para nós, o maior benefício é assegurar um cliente constante, mais do que o investimento inicial”, enfatizou Vinicius Alvarenga, CEO da mineradora.
Com esses novos desenvolvimentos, a CBL visa triplicar sua produção de minério de lítio para 165 mil toneladas, o que poderia elevar suas receitas para mais de R$ 1 bilhão, considerando a expansão da refinaria. A empresa está em busca de novos parceiros, incluindo empresários indianos. Recentemente, a estatal SCCL, que havia assinado um memorando com a Altmin, foi convidada a participar de uma seleção que poderá resultar em uma sociedade com a CBL, oferecendo aos indianos a chance de integrar toda a cadeia produtiva de lítio no Brasil.
Atualmente, o Brasil conta com duas mineradoras de lítio em operação, além de pelo menos três projetos em andamento. No entanto, apenas a CBL realiza o refino do mineral. A Sigma Lithium, a maior do país, realiza apenas a concentração da rocha, um passo que acontece logo após a extração.
Até outubro de 2022, o governo de Minas Gerais possuía um terço da CBL, abrangendo tanto a mineração quanto o refino. Entretanto, o governo de Romeu Zema (Novo) vendeu essa participação por R$ 208 milhões para os sócios fundadores da mineradora, justificando que a entrada de um novo sócio poderia atrair mais investimentos para a região, diante da atual crise fiscal do estado.
