A Luta por Atendimento de Saúde no Interior
Em uma busca desesperada por tratamento eficaz, Adriana Gomes, fundadora e presidente da Associação Tijucanna Cannabis Terapêutica, localizada em Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, compartilha uma história que reflete a realidade de muitas famílias no interior de Minas. Sua filha, diagnosticada com uma síndrome rara que inclui microcefalia, hidrocefalia e epilepsia, enfrentou dificuldades significativas para estabilizar suas crises convulsivas com os medicamentos convencionais. De acordo com Gomes, a cidade carece de neuropediatras, o que obriga o acesso a um neurologista adulto pelo SUS, levando um tempo de espera que varia entre seis a nove meses. “Ela é uma criança que precisa de assistência quase imediata”, desabafa.
Com a ausência de serviços locais, os tratamentos frequentemente ocorrem fora do Estado, em instituições como a Rede Sarah, em Brasília, exigindo uma viagem de aproximadamente 11 horas. “Quando começamos a utilizar a medicação à base de cannabis e notamos uma melhora significativa, unimos forças com outras mães e criamos a associação”, relata Gomes. Atualmente, a Tijucanna atende entre mil e 1.500 pessoas em Minas e foi a primeira no Estado a conseguir uma liminar judicial que permite todas as etapas do processo, desde o cultivo até a dispensação do óleo. Para Gomes, o apoio do poder público seria fundamental para expandir o atendimento totalmente gratuito. Ela ainda acrescenta: “A situação do SUS piorou; são muitas filas para exames, consultas e cirurgias eletivas.”
Reconhecendo os Desafios Estruturais
Fábio Baccheretti, secretário estadual de Saúde desde 2021, reconhece as dificuldades enfrentadas pelos moradores do interior. Ele menciona que o principal desafio do atendimento em Minas é a integração de um sistema que abrange mais de 21 milhões de pessoas distribuidas por 853 municípios. “Existem regiões com alta concentração de serviços de saúde e outras que apresentam vazios assistenciais”, observa. No âmbito da atenção hospitalar, a estratégia adotada é a regionalização, dividindo o Estado em 16 macrorregiões e cerca de cem microrregiões de saúde. Cada macrorregião deve contar com hospitais de alta complexidade, enquanto as microrregiões ficam encarregadas da média complexidade. O secretário destaca que cinco hospitais regionais estão prestes a ser inaugurados em Teófilo Otoni, Divinópolis, Sete Lagoas, Governador Valadares e Conselheiro Lafaiete, sendo o de Teófilo Otoni, por exemplo, planejado para ter mais de 420 leitos e reduzir os deslocamentos que hoje chegam a durar oito ou nove horas.
Baccheretti ainda ressalta que os repasses estaduais vinculados ao desempenho aumentaram de R$ 600 milhões para R$ 2 bilhões, e que 80% da assistência hospitalar é prestada por instituições filantrópicas. Entretanto, ele reconhece que a falta de integração entre a atenção primária, especializada e hospitalar continua sendo um problema crucial. Nesse cenário, fortalecer a atenção básica é a prioridade. Segundo o secretário, 98% da população está coberta por equipes de Saúde da Família, com a meta de alcançar 100% ainda em 2024, além da construção de mais de 300 Unidades Básicas de Saúde (UBS), com um investimento estimado em R$ 500 milhões. “Quando falo em cobertura, me refiro a equipes ativas”, enfatiza.
Falta de Recursos e Desafios Futuros
No entanto, a avaliação sobre a situação da saúde em Minas não é unânime. Erli Rodrigues da Silva, conselheiro estadual de saúde, aponta que o subfinanciamento estrutural é o maior gargalo. “Em 2022, o Estado investiu cerca de R$ 62 por habitante por mês com recursos próprios em saúde. Esse valor é extremamente baixo”, afirma. Ele argumenta que, ao expandir a infraestrutura sem profissionais capacitados o suficiente, os pacientes acabam sendo encaminhados para Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e hospitais. “Estudos mostram que uma atenção primária bem estruturada pode resolver até 80% dos problemas de saúde”, destaca.
Baccheretti acredita que a tecnologia pode ser uma solução para o desequilíbrio do sistema. A teleconsulta, por exemplo, já permitiu resolver 83% dos pedidos de especialidades na atenção primária, com suporte remoto de instituições como o Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com a Rede Mineira de Dados de Saúde como prioridade até 2026, prevendo um investimento superior a R$ 200 milhões para integrar informações do SUS e evitar exames repetidos. “O paciente precisa seguir sempre em frente dentro do sistema”, afirma.
Em termos financeiros, o secretário aponta que o orçamento da saúde cresceu de aproximadamente R$ 4 bilhões para R$ 12 bilhões desde 2021, mas admite que a judicialização continua sendo um grande desafio, com gastos em torno de R$ 1 bilhão por ano, o que representa cerca de 25% do orçamento disponível para a saúde. Minas Gerais conta com cerca de 30% da população coberta por planos de saúde. Baccheretti também observa que, quando beneficiários de planos utilizam o SUS, o ressarcimento vai para a União, e não para o Estado.
Outro foco da gestão é a Parceria Público-Privada (PPP) para a construção do Complexo Hospitalar Padre Eustáquio, que reunirá quatro hospitais antigos de Belo Horizonte em uma nova estrutura moderna, com pagamento baseado em produção e qualidade. O contrato da PPP prevê um investimento diluído ao longo de 30 anos.
Críticas às Parcerias Públicas e o Impacto na Comunidade
Rodrigues critica a ampliação das parcerias com a iniciativa privada, alegando que os recursos já são escassos e, ao serem terceirizados, correm o risco de não atingir integralmente a população, além de apontar a falta de transparência nesse processo. Ele ressalta ainda a fragilização do controle social. “Mesmo quando a proposta é boa, se não houver discussão com a sociedade, tende a não funcionar como deveria”, conclui.
Para Adriana Gomes, essa dinâmica reflete diretamente na vida dos pacientes, que muitas vezes se encontram sem alternativas. Em sua própria jornada, a busca por um tratamento adequado para sua filha a levou a fundar a associação, um passo que representa não apenas uma luta pessoal, mas uma busca por soluções que possam beneficiar outras famílias na mesma situação.
