A Transformação da Mineração com a Economia Circular
Com uma crescente pressão por práticas sustentáveis, o setor mineral está incorporando a denominada mineração circular como resposta aos desafios globais enfrentados no século XXI. Diferentemente do modelo linear tradicional de extração, beneficiamento e descartes, essa nova abordagem prioriza o reaproveitamento de rejeitos, reintegrando-os na cadeia produtiva. O objetivo? Otimizar a utilização de recursos minerais, limitar a necessidade de novas extrações e mitigar impactos ambientais, ao mesmo tempo em que se busca gerar valor econômico.
O avanço das tecnologias nas últimas décadas trouxe à tona o valor de materiais que antes eram tidos como resíduos no processo de extração mineral. “Fora alguns metais, estamos lidando com recursos naturais não-renováveis, o que torna a tarefa ainda mais desafiadora”, comenta Rinaldo Mancin, diretor de Sustentabilidade e Assuntos Associativos do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). Ele exemplifica a situação do ouro, cuja concentração é frequentemente baixa — cerca de dois a três gramas por tonelada. “Tecnologias que existiam há 40 ou 50 anos não eram capazes de extrair esse ouro, que acabava nos rejeitos. Atualmente, com os avanços nos processos de separação, é possível remineralizar essas barragens”.
Iniciativas de Reaproveitamento e Sustentabilidade
Um exemplo notável é a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), que opera em Araxá, Minas Gerais. “Uma das nossas iniciativas de destaque é a recuperação da magnetita, que surge como subproduto do beneficiamento do pirocloro. Ao recuperar e reintegrar esse material ao processo produtivo, conseguimos diminuir a quantidade de rejeitos e aumentar a vida útil das barragens. Em 2025, conseguimos comercializar mais de 1,3 milhão de toneladas de magnetita”, explica Leandro César Pereira, diretor de Mineração e Ativos da Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge), que é parceira da CBMM na exploração do nióbio em Araxá.
Além disso, o uso eficiente da água se apresenta como um grande desafio para a mineração sustentável. A Cedro Mineração, situada em Nova Lima, na Região Metropolitana de Minas Gerais, produz aproximadamente 7 milhões de toneladas de minério de ferro. A empresa investe no que é conhecido como ‘minério verde’, ou pellet feed, que possui alta concentração de ferro e baixa impureza, resultando em uma redução de até 50% nas emissões de CO₂. Lucas Kallas, fundador e presidente do Conselho da Cedro Mineração, ressalta que “o pellet feed não apenas melhora a qualidade do processo siderúrgico, mas também é essencial para a transição energética global”. A companhia aplica técnicas de filtragem e empilhamento a seco, eliminando a necessidade de barragens de rejeito e aproveitando cerca de 85% da água utilizada em seus processos.
Compromissos do Ibram em Sustentabilidade
No contexto da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30), realizada em Belém (PA) em novembro do ano passado, o Ibram delineou quatro metas ambientais e sociais com indicadores claros, focando em energia, biodiversidade, uso sustentável da água e adaptação às mudanças climáticas. A entidade pretende desenvolver 30 planos de adaptação para áreas mineradas, integrando ações climáticas a planejamentos urbanísticos.
A proposta para energia busca aumentar em 15% a presença de fontes renováveis na matriz energética do setor até 2030. Em relação à biodiversidade, o objetivo é ampliar em 10% o ganho líquido de biodiversidade até 2030, enquanto o uso da água deve ser reduzido em 10% por tonelada de minério bruto, enfatizando a eficiência hídrica.
“Esses compromissos foram amplamente discutidos com nossos associados, e são verificáveis e monitorados com total transparência”, afirmou Raul Jungmann, que presidia o Ibram durante a COP 30. A implementação dessas metas representa um compromisso firme da mineração brasileira em relação ao desenvolvimento sustentável e à conservação ambiental.
Fórum de Discussão sobre o Futuro da Mineração
O TEMPO Seminários – Mineração 360° realiza sua segunda edição, tornando-se um importante espaço de debate e geração de negócios no setor mineral. O evento contará com quatro painéis que reunirãocomo líderes do setor, especialistas e representantes da indústria para discutir as direções e desafios da mineração no Brasil. Entre os participantes confirmados estão o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, e representantes de diversas empresas, como Codemge e Vale.
Os painéis abordarão temas como o papel da mineração no desenvolvimento econômico de Minas Gerais, a geopolítica dos minerais estratégicos e práticas de investimentos associados à responsabilidade socioambiental. O evento, programado para o dia 13 de maio de 2026, busca não apenas debater o estado atual da mineração, mas também desenhar um futuro mais sustentável e equilibrado para o setor.
