Escravidão e seu Impacto no PIB per Capita do Brasil
Durante a maior parte de sua trajetória, o Brasil se caracterizou como uma nação com um PIB per capita persistentemente baixo. Embora, em seus primórdios, tenha alcançado uma renda média comparável à de algumas nações europeias, isso não durou muito. A partir do século 17, a riqueza do país estagnou, e a renda per capita não apresentou melhorias significativas por aproximadamente duzentos anos.
Foi apenas a partir do século 19 que o Brasil começou a registrar avanços substanciais em sua produtividade, refletindo um crescimento no PIB per capita. Essa conclusão faz parte de um estudo minucioso elaborado pelos historiadores econômicos Guilherme Lambais, da Universidade Lusíada de Lisboa, e Nuno Palma, da Universidade de Manchester. O trabalho se propôs a estimar o PIB per capita do Brasil desde o período colonial até a República, abrangendo os anos de 1574 a 1920.
Uma versão preliminar do artigo, intitulado “Como nasceu um país: crescimento econômico do Brasil”, tem circulado entre economistas e gerado debates acalorados nas últimas semanas. Os pesquisadores afirmam que a escravidão é o principal motor por trás da trajetória econômica desfavorável do Brasil. A prática de explorar mão de obra escrava e o intenso tráfico de africanos forçados a trabalhar no país, segundo eles, resultaram em uma armadilha de baixos salários, baixa tecnologia e, consequentemente, baixo desenvolvimento.
As evidências apresentadas por Lambais e Palma iluminam um passado complexo e frequentemente debatido, que carecia de dados mais robustos. A pesquisa fornece uma nova perspectiva sobre os principais dilemas da história econômica brasileira, fortalecendo algumas interpretações e fragilizando outras. Questões como o período em que o Brasil teria se distanciado das economias desenvolvidas e quando começou a se transformar em uma nação de renda média são revisitadas à luz dos dados coletados.
A Pesquisa e suas Descobertas
A busca por respostas levou os pesquisadores a compilar mais de 30 mil dados sobre salários e preços de produtos ao longo de três séculos. O estudo foi realizado pelo Centro de Investigação em Economia e Desenvolvimento Comparado da Universidade Lusíada e recebeu apoio parcial da Fundação Haddad, criada pelo economista Claudio Haddad.
De acordo com a pesquisa, a exploração do trabalho escravo impactou a economia do país de três maneiras principais. Primeiramente, os africanos escravizados eram mantidos em condições de extrema pobreza, o que os impedia de contribuir para o desenvolvimento econômico. Em segundo lugar, o mercado de trabalho não qualificado era desvalorizado pela abundância de mão de obra escrava, resultando em salários extremamente baixos para os trabalhadores livres, que representavam a maioria da população. Por último, a disponibilidade de mão de obra barata, tanto escrava quanto livre, desencorajou a adoção de processos produtivos mais eficazes.
Os pesquisadores constatam que a alta renda per capita observada no início da colonização foi interrompida devido ao aumento do tráfico de escravizados no século 17. Esse fenômeno deu início a um ciclo de estagnação econômica que perdurou por gerações. Com o fim do tráfico de escravizados, o que eles chamam de “armadilha de baixo salário e baixa tecnologia” começou a ser desmantelada.
As novas estimativas de PIB per capita coincidiam com marcos importantes da economia brasileira, como a queda de renda em meados do século 17, atribuída à perda de monopólio na produção de açúcar, e a aceleração do crescimento na segunda metade do século 19, relacionada à expansão do cultivo de café. Lambais destaca que a análise de Celso Furtado sobre esses períodos estava, em essência, correta.
Críticas e Controvérsias
Entretanto, a pesquisa também gerou controvérsias. O economista Edmar Bacha, que fez parte da implementação do Plano Real, teceu críticas ao estudo. Ele elogiou o uso de dados sistemáticos sobre preços e salários, mas alertou sobre o risco de que a estimativa do PIB com base em salários reais não represente de forma precisa a realidade de uma economia escravocrata.
Bacha argumenta que, devido à intensa concorrência entre trabalhadores livres e escravizados, eventuais aumentos de produtividade beneficiavam principalmente os proprietários de terras, não se refletindo nos salários dos trabalhadores. Isso, segundo ele, pode ter contribuído para a concentração de renda no Brasil.
Em resposta, Nuno Palma defendeu que os dados sobre salários reais abordam não apenas os trabalhadores não qualificados, mas também outros grupos sem substituição direta por escravizados. Ele acredita que a omissão da renda acumulada pelos proprietários não distorce significativamente as conclusões do estudo, pois a elite é uma fração pequena da população.
Esse debate acirrado sobre a influência da escravidão na economia brasileira traz à tona questões fundamentais sobre a formação histórica do país e suas desigualdades atuais. A pesquisa de Lambais e Palma, portanto, representa um importante passo no entendimento das raízes econômicas do Brasil, ao mesmo tempo em que desafia narrativas estabelecidas.
