O Que São os Hormônios dos Implantes Subcutâneos?
A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) concordam: os hormônios na forma de pellets têm como principal finalidade o uso anabolizante, e seu emprego continua a ser proibido. Mas como esses produtos estão sendo comercializados?
A Anvisa proíbe explicitamente o uso anabolizante em implantes, mas não impede que médicos prescrevam hormônios para o tratamento de doenças. É essa diferença que abre uma brecha: médicos estão classificando os pellets como reposição hormonal ou terapia, mesmo quando as entidades médicas e o Conselho Federal de Medicina (CFM) afirmam que não há justificativa clínica para tal uso.
Para elucidar essa questão, o g1 consultou especialistas para discutir o que a ciência realmente diz sobre essas substâncias e suas promessas muitas vezes infundadas.
Testosterona: Um Hormônio Polêmico
A testosterona, conhecido como o principal hormônio sexual masculino, também é encontrado em quantidades mínimas no corpo feminino, sendo uma característica biológica natural e não uma deficiência a ser corrigida. A medicina define indicações específicas para seu uso.
Nos homens, é indicada apenas em casos de deficiência comprovada, como o hipogonadismo, e nas formas de gel ou injeção. Já para pessoas transmasculinas, a prescrição ocorre sob protocolo médico especializado, igualmente nas mesmas formas.
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As mulheres, por sua vez, só podem ter acesso ao hormônio em situações restritas, como o transtorno do desejo sexual hipoativo, que deve ser diagnosticado após uma avaliação rigorosa e a exclusão de outras causas. Mesmo nesses casos, as recomendações médicas sugerem o uso de gel manipulado em doses que variam entre 1 e 5 mg. O implante subcutâneo não é considerado em nenhuma dessas situações.
A ginecologista Zsuzsanna Di Bella, que atua no Departamento de Ginecologia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e é membro da Febrasgo, destaca a falta de estudos que comprovem a duração da testosterona no organismo feminino na forma de pellets. “Não temos dados sobre a absorção, que é muito variável e depende da farmácia de manipulação”, comenta.
Clayton Macedo, doutor em endocrinologia e professor da Unifesp, ainda ressalta que, mesmo em países onde versões industriais da testosterona foram aprovadas, seu uso continua bastante limitado devido a sua liberação irregular, que apresenta picos e durações imprevisíveis.
É importante lembrar que não há respaldo científico das sociedades médicas, nem aprovação da Anvisa, para o uso da testosterona visando menopausa, ganho de massa muscular ou rejuvenescimento.
Gestrinona: Uma Substância Problema
A gestrinona, um hormônio sintético com ação androgênica, pode atuar como um hormônio masculinizante. Seu histórico é alarmante: foi testada como anticoncepcional, mas abandonada devido aos riscos associados e à baixa segurança. Atualmente, não é parte das terapias recomendadas nas diretrizes médicas em nenhuma formulação.
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Os pellets que contêm gestrinona não apresentam dados sobre sua absorção ou segurança, e não existem ensaios clínicos que validem seu uso. Di Bella é clara: “a substância tem sido utilizada em implantes sem qualquer comprovação dos resultados a longo prazo”. O fato de ter sido pesquisada previamente não justifica seu uso atual, especialmente para queixas estéticas ou de desempenho.
Oxandrolona e Seus Riscos
A oxandrolona é um esteroide anabolizante derivado da testosterona, cujo principal efeito é a construção de tecido muscular. Embora tenha sido estudada em condições específicas, como perda muscular severa ou em casos de grandes queimaduras, a medicina não recomenda seu uso, seja por via oral, injetável ou implantada.
Segundo Marcelo Steiner, ginecologista da Febrasgo, não há qualquer indicação para a oxandrolona visando fins estéticos ou melhora de desempenho físico. A verdade é que, durante a menopausa, o que falta no corpo feminino é o estradiol, o principal estrogênio, e não a testosterona, que não deve ser reposta rotineiramente, como explica Di Bella.
A terapia hormonal para menopausa, quando indicada, envolve a reposição de estradiol, e, em mulheres que têm útero, a associação com progesterona.
O Perigo dos Implantes Subcutâneos
Mesmo que houvesse uma indicação médica reconhecida para um hormônio, o uso de implantes subcutâneos manipulados acrescentaria incertezas que outras formas de administração não apresentam. Macedo explica que a velocidade de absorção varia de pessoa para pessoa, o que dificulta saber exatamente qual dose está sendo liberada e por quanto tempo o hormônio permanece ativo no corpo.
Além disso, o que chama a atenção é o risco de “empilhamento de dose”. Normalmente, os implantes são recomendados a cada seis ou doze meses, mas não se sabe se a liberação do pellet anterior foi totalmente consumida antes da inserção de um novo. Isso pode resultar na acumulação de doses, causando consequências prejudiciais à saúde.
Consequências para a Saúde
Steiner alerta que essa sobrecarga hormonal pode acarretar problemas sérios, como hipertensão, complicações cardíacas e hepáticas. “A testosterona não age apenas nos músculos; o coração reage a esse estímulo, e isso pode apresentar riscos reais”, afirma.
Outro efeito preocupante é a dependência, pois a sensação de energia elevada nas primeiras semanas pode levar a um ciclo de reaplicações e acúmulo de doses, que certamente trará danos ao organismo.
Com isso, muitas mulheres saem de consultórios com problemas cardíacos graves, um cenário que se torna cada vez mais comum. Portanto, é crucial discutir com os médicos as implicações do uso de hormônios em implantes subcutâneos.
