A Gravidade do Diabetes em Minas Gerais
A cada nove segundos, alguém em Minas Gerais é internado em decorrência de complicações associadas ao diabetes. Essa realidade é alarmante e reflete a crescente prevalência da doença no estado. Antônio Domingos dos Santos Filho, aposentado de 61 anos, é um exemplo dessa luta silenciosa. ‘É uma doença silenciosa, eu não sentia nada’, confessa ele, que convive com a enfermidade há 16 anos. O aumento da sede, um dos sintomas mais comuns, passou despercebido por ele até que o diagnóstico o surpreendeu: uma glicose de 219 mg/dL, bem acima dos níveis considerados normais para um adulto.
Dados da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) revelam que, em 2025, foram registradas mais de 3,5 milhões de internações relacionadas ao diabetes, com complicações que vão desde infartos a insuficiência renal. O endocrinologista Paulo Miranda, da Rede Mater Dei, destaca um dos principais desafios: ‘Na maioria das vezes, o diagnóstico é feito na ausência de sintomas. Uma pesquisa indicou que quase metade das pessoas com glicose alterada não sabia que tinha diabetes’.
Os Riscos de Não Tratar a Doença
A falta de percepção dos sintomas pode levar a complicações devastadoras. Miranda alerta: ‘O diabetes é a principal causa de cegueira adquirida e também pode resultar em neuropatia diabética, infecções, dor nos pés e amputações. No mundo todo, uma amputação de membro inferior ocorre a cada 15 segundos devido ao diabetes’. Antônio, que enfrentou a dor de perder a visão e teve uma perna amputada, sabe bem como a doença pode impactar a vida. ‘A maior amputação foi emocional’, diz ele, refletindo sobre como a doença afetou sua autoestima e qualidade de vida.
Ao relatar sua experiência, Antônio admite que não levou o tratamento a sério logo após o diagnóstico. ‘Continuei fazendo tudo errado, não cumpri as regras para controlar a doença’, admite. O chocolate e o café adoçado tornaram-se tentações difíceis de resistir. ‘Quando você se desvia do controle, a situação só piora’, afirma. O uso do cigarro também contribuiu para agravar suas condições de saúde.
A Importância do Acompanhamento Médico
A situação de Antônio é agravada pela falta de acesso a acompanhamento regular. Ele vive com seu pai, que também é diabético, e isso dificulta a logística para consultas médicas. ‘Não tenho acompanhamento porque dependo de alguém para me levar. Muitas vezes, deixamos de fazer as coisas para não incomodar ninguém’, explica. Essa barreira impede que ele receba os cuidados necessários para gerenciar a doença adequadamente.
Diabetes em Crianças: Um Caso de Emergência
O diabetes não escolhe idade, como demonstra o caso de Luiz Felipe de Almeida, um estudante de 12 anos que luta contra a doença. Sua mãe, Lídia de Almeida, conta que os primeiros sinais foram confundidos com uma virose, até que Luiz foi internado em estado crítico, com hiperglicemia acima de 400. ‘Se tivéssemos demorado mais algumas horas, poderíamos ter perdido nossa criança’, desabafa Lídia, lembrando do desespero ao receber a notícia.
Para o médico Paulo Miranda, existem diferentes tipos de diabetes que exigem abordagens distintas. ‘O diabetes tipo 1 é um distúrbio autoimune, geralmente diagnosticado na infância, enquanto o tipo 2 é muitas vezes assintomático e está ligado a condições como obesidade e hipertensão’. A família de Luiz teve que se adaptar a uma nova rotina, com horários rigorosos para alimentação e aplicação de insulina, algo que impactou a todos em casa.
O Crescimento das Internações por Obesidade e Hipertensão
Em Belo Horizonte, as taxas de internação por obesidade aumentaram 138,8% em 2025, com 9.231 casos registrados, enquanto as internações por hipertensão cresceram 234%. Estas doenças estão frequentemente interligadas ao diabetes, e os pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) sugerem a necessidade de um imposto sobre bebidas açucaradas para conter a epidemia de obesidade. ‘Em 2019, estimamos que 57 mil mortes prematuras no Brasil foram atribuídas ao consumo de alimentos ultraprocessados’, destacam os especialistas.
Para o endocrinologista Paulo Miranda, a implementação de tais tributações é uma medida necessária, mas as soluções devem ser abrangentes, incluindo educação e investimentos em saúde pública. ‘Uma alimentação saudável não deve ser vista como algo inacessível. Ela pode ser simples e baseada em alimentos frescos, evitando a dependência de produtos ultraprocessados’, sugere.
Prevenção é a Chave
A prevenção do diabetes e suas complicações começa com o diagnóstico precoce e o tratamento adequado. ‘Adotar hábitos saudáveis, manter uma alimentação balanceada, praticar exercícios e cuidar do sono são fundamentais’, afirma o endocrinologista Rodrigo Lamounier. Ele enfatiza que é essencial buscar informações sobre a alimentação saudável e seguir diretrizes como o Guia Alimentar para a População Brasileira, que oferece orientações claras e acessíveis sobre como se alimentar bem.
Antônio, que vive a realidade da diabetes, destaca a necessidade de consciência. ‘A partir dos 40 anos, é importante fazer um check-up completo. O diabetes é silencioso e, quando você percebe, ele já avançou’, alerta. Para ele, a melhor forma de cuidar da saúde é fazer dela uma prioridade. ‘O que estou passando não é fácil e não desejo isso a ninguém. As pessoas precisam se informar e se cuidar’.
