Minas Gerais e a tradição eleitoral que reflete o Brasil
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) em Minas Gerais no segundo turno das eleições presidenciais de 2026, realizada no domingo (25), manteve um padrão histórico que acompanha o país desde a redemocratização. Desde 1989, o candidato vencedor da eleição nacional também obteve a maioria dos votos em Minas Gerais, consolidando o estado como um termômetro da disputa presidencial no Brasil.
No primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro liderou com 48,24% dos votos válidos em Minas Gerais, enquanto Lula alcançou 43,33%, uma diferença aproximada de 589 mil votos. No entanto, o cenário mudou no segundo turno, quando Lula conquistou 50,43% dos votos (6.351.099 votos), superando Flávio, que obteve 49,57% (6.241.786 votos). A margem de vantagem para o petista foi de cerca de 109 mil votos no estado, refletindo também seu sucesso nacional, com 51,79% dos votos válidos contra 48,21% do adversário.
Histórico que confirma a influência mineira
Esse padrão vem desde a eleição de Fernando Collor (PRN) em 1989 e se repetiu nas eleições seguintes com Fernando Henrique Cardoso (PSDB) em 1994 e 1998; Lula em 2002 e 2006; Dilma Rousseff (PT) em 2010 e 2014; Jair Bolsonaro (PSL) em 2018; e Lula novamente em 2022 e 2026. Em dez eleições presidenciais consecutivas, Minas Gerais refletiu o resultado nacional. Contudo, isso não significa que o estado determine sozinho o resultado final ou que seu eleitorado mantenha uma preferência política fixa.
O eleitorado diversificado e o impacto da mobilização
Para a cientista política Maria Teresa Kerbauy, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), a diversidade do eleitorado de Minas Gerais é um fator chave para essa tradição electoral. O estado concentra características encontradas em diferentes regiões do país e abriga o segundo maior colégio eleitoral do Brasil, com 16.377.659 eleitores aptos, conforme dados do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG), representando 10,32% do eleitorado nacional.
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O segundo turno de 2026 ilustra as particularidades da eleição. Flávio Bolsonaro liderou no primeiro turno, mas Lula conseguiu reverter o resultado. Kerbauy atribui essa virada à intensa campanha do PT nas ruas, à mobilização nas redes sociais e à participação de figuras relevantes entre os dois turnos. Além disso, a campanha petista focou em reduzir a abstenção, e dados preliminares indicam que eleitores que votaram em Flávio no primeiro turno migraram para Lula no segundo.
Minas Gerais como reflexo do equilíbrio político do país
O cientista político Thiago Silame, da Universidade Federal de Alfenas (Unifal), destaca que a votação de Lula cresceu substancialmente em Minas Gerais entre os dois turnos, impulsionada pela articulação do mineiro André Janones (Rede-MG). Lula conseguiu reverter o resultado em 76 municípios do estado e reduziu a diferença mesmo nos locais onde não venceu.
Essa tradição não se traduz em uma preferência partidária fixa do eleitorado mineiro. Ao longo das últimas eleições presidenciais, Minas Gerais votou em candidatos de diferentes espectros políticos, como Collor, Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro. A coincidência reside no resultado final, não na repetição de uma mesma escolha ideológica.
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Separação entre voto presidencial e estadual
Além disso, o eleitorado mineiro costuma diferenciar sua escolha para a Presidência da República e para o governo estadual. Em 2026, por exemplo, o estado elegeu Cleitinho Azevedo (Republicanos) como governador, enquanto optou por Lula na disputa presidencial. Esse padrão também foi observado em 2022, quando Romeu Zema (Novo) foi reeleito governador, e em 2002 e 2006, quando Lula venceu para presidente e Aécio Neves (PSDB) para governador.
Para Silame, essa distinção está mais relacionada ao conjunto de candidaturas disponíveis do que a uma estratégia deliberada de equilíbrio político. Ele ressalta que em 2014 e 2018 a coincidência entre votos para presidente e governador ocorreu em contextos específicos, como a liderança de ex-governadores e a identificação do eleitor com projetos políticos locais, mais do que por cálculo estratégico do eleitor.
O próximo passo político em Minas Gerais e no cenário nacional será acompanhar como esses padrões eleitorais influenciarão futuras disputas e decisões institucionais, especialmente diante das dinâmicas internas dos partidos e das articulações que acontecem fora das urnas.
